2010
Ano Celebrações 500º aniversário do Nascimento

Fernão Mendes Pinto (1510 (?) - 1583) nasceu em Montemor-o-Velho cerca de 1510. Os primeiros anos de vida do Fernão Mendes Pinto foram passados ali, isto segundo o testemunho do próprio autor: “…passei a vida até idade de dez ou doze anos na miséria e estreiteza da pobre casa de meu pai, na vila de Montemor - o - Velho…”. Ainda muito novo um tio levou-o para Lisboa e o colocou ao serviço na casa do duque D. Jorge, filho natural do rei D. João II. Ali trabalhou durante cinco anos, dois dos quais como moço de câmara do próprio duque, o que lhe possibilitou preservar o elevado estatuto social da sua família, contrariando a precária situação económica que atravessava. Por razões pouco claras nas fontes, fugiu numa embarcação com destino a Setúbal, em 1523. Durante a viagem, foram abordados por piratas, que os roubaram e largaram numa praia alentejana. Em Setúbal esteve ao serviço do fidalgo Francisco de Faria.
Em 1537, aos 27 anos, embarcou para a Índia, em busca de fortuna. O que se “sabe” da sua longa estada no Oriente foi-nos transmitido pelo próprio e é quase impossível confirmá-lo com outras fontes.
Ao longo de vinte anos percorreu as rotas frequentadas pelos portugueses no mundo, embarcou numa expedição ao mar
Vermelho e participou num combate naval com os otomanos. Foi feito prisioneiro, vendido a um grego e, por este, a um judeu que o levou para Ormuz. Só aí foi resgatado pelos seus companheiros. A partir daí, acompanhou Pedro de Faria até Malaca, local onde iniciou as suas maiores aventuras. Foram 21 anos de imprevistos, sustos e ameaças - e muitas descobertas únicas. Viajou pelas costas da Birmânia, Sião, arquipélago de Sunda, Molucas, China e Japão. Descobriu um novo mundo. Foi criado, comerciante, soldado e até corsário. Segundo as suas próprias palavras foi “treze vezes cativo e dezassete vendido“.
Em 1539 encontra-se ao serviço do capitão de Malaca, em nome do qual estabeleceu contactos diplomáticos com um potentado da região. Poucos anos depois (1542) fez a primeira viagem ao Japão, acompanhado por outros portugueses.
Em 1553, encontrou-se com S. Francisco Xavier no Japão e, inspirado pela sua força e personalidade, decide entrar para a Companhia de Jesus e promover uma missão jesuítica nesse local. O Japão foi, sem dúvida, um dos países mais marcados pela presença de Fernão Mendes Pinto. A entrada na Companhia de Jesus alterou-lhe a personalidade. Libertou todos os seus escravos, entregou a sua fortuna aos pobres e à própria ordem religiosa, em Goa. Contudo, a sua missão como
“irmão leigo” dura apenas até 1557, ano em que decide pôr ponto final nessa aventura. A decisão advém da viagem que faz, novamente ao Japão, em 1554, como noviço da Companhia de Jesus e embaixador do vice-rei D. Afonso de Noronha, junto do rei de Bungo. O desencanto foi total, quer com o comportamento do seu companheiro quer com a própria Companhia. Em 1557, abandona a Companhia.
De volta a Portugal e com a ajuda do ex-governador da Índia, Francisco Barreto, Fernão Mendes Pinto compila documentos que comprovam os sacrifícios que realizou pela pátria, tendo direito a uma pensão, que… nunca chegou a receber. Em 1558, estabeleceu-se numa quinta que adquiriu no Vale do Rosal, em Almada, onde escreveu, entre 1570 e 1578, a sua inigualável “Peregrinação”. No entanto, a sua obra só será publicada depois da sua morte, em 1614. A “Peregrinação” é um fantástico livro de viagens que relata, ao pormenor, todas as façanhas, aventuras e desventuras de Fernão Mendes Pinto. O seu conteúdo é exótico e raro. Descreve detalhadamente a geografia de destinos longínquos e desconhecidos para a época, como Índia, China, Birmânia, Sião e Japão. Mostra os costumes, credos e tradições destas culturas orientais. O autor é tão descritivo e aventuroso que fez nascer um rol de ironias à volta da obra. Ninguém acreditava ser possível assistir a tantas festas, guerras e funerais, tudo tão diferente e estranho ao mundo ocidental. Tão pouco foi levado a sério pelos seus contemporâneos, muitos deixaram de chamá-lo pelo nome. Tratavam-no por “Fernão, Mentes? Minto!”. Ainda hoje é assim conhecido.
Segundo a opinião de vários historiadores, a versão impressa não corresponde inteiramente à redacção do autor. Algumas passagens terão sido subtraídas e outras corrigidas. Estranha-se, sobretudo, a total ausência de referências à Companhia de Jesus, tanto mais que ela era, na altura, uma das ordens religiosas mais activas no Oriente; além do mais, há indicações fidedignas de relações entre Fernão Mendes Pinto e a Companhia.
O livro foi escrito de memória, por isso em muitos aspectos não é uma fonte de informação fidedigna. No entanto, documenta de forma extremamente viva e realista o impacto das civilizações orientais sobre os europeus recém-chegados e, sobretudo, constitui uma análise extremamente realista da acção dos portugueses no Oriente.
A obra “Peregrinção” trata-se de um testemunho presencial relativo aos comportamentos, atitudes, modos de vida desses povos, e por isso de um valor documental inestimável.
Fernão Mendes Pinto faleceu a 8 de Julho de 1583, na sua quinta do Pragal.

Peregrinação
Autoria: Fernão Mendes Pinto
Data de publicação: 1614
“Introdução
Peregrinação é o mais traduzido e famoso livro de viagens da literatura portuguesa. Foi publicado em 1614, pelos prelos de Pedro Crasbeeck, trinta anos após a morte do autor. Terá sido escrito entre 1570 e 1578 em Vale de Rosal, Almada; nela se misturam a história e a fantasia, sendo, por vezes, difícil saber onde começa uma e termina a outra.
Aliando aspectos autobiográficos e uma ficção verosímil e convincente, Fernão Mendes Pinto oferece-nos uma curiosa reportagem do impacto que tiveram os costumes orientais sobre os europeus da época, assim como um interessante testemunho da acção dos portugueses no Oriente.
Declara que são três os objectivos que o levaram a escrever o livro: dar a conhecer os seus trabalhos aos filhos (função autobiográfica), encorajar os desesperados e os que se vêem em dificuldades (função moral), ter quem dar graças a Deus (função religiosa). Mas, lidos os 226 capítulos da obra, fica-se com a impressão de que existe permanentemente um tom de sátira às habilidades enviesadas de muitos Portugueses por terras e mares do Oriente.
O que mais chama a atenção é o seu conteúdo exótico. O autor é perito - diz-se mesmo que pintor - na descrição da geografia da Índia, China e Japão e da etnografia: leis, costumes, moral, festas, comércio, justiça, guerras, funerais, etc. Notável é também a previsão da derrocada do Império Português, corroído por tantos vícios e abusos.
Afirma-se que é na Peregrinação que a prosa literária portuguesa prepara o seu período moderno. De facto, a naturalidade, o tom coloquial, o extraordinário visualismo apontam novos rumos que se irão ver realizados em Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett.![]()
A obra
O início da Peregrinação coincide com a saída do autor da casa pobre de seus pais e a narrativa prolonga-se até ao seu regresso a Lisboa, 21 anos depois. A narração começa por desenvolver um episódio passado perto da costa portuguesa, com uma caravela que foi aprisionada e roubada por um corsário português, quando seguia de Lisboa para Setúbal. Partiu depois para a Índia e viveu na costa de Malabar uma série de aventuras. Mais tarde, e embora não possamos afirmar se esta referência é real ou apenas fruto do imaginário lendário do autor, narra-nos momentos passados na Abissínia. Vai, posteriormente, de Goa para Malaca na companhia do capitão Pêro de Faria, aí se estabelecendo, apesar das saídas permanentes como embaixador, mercador e corsário.![]()
A sua actividade comercial condu-lo ao Sião, ao Camboja, à Cochinchina e Tóquio.
Mais tarde, na companhia de António Faria, sai para as costas orientais da Ásia e ilhas do mar da China, onde viveu episódios extraordinários, nomeadamente o do roubo dos sarcófagos dos imperadores chineses, narrado de forma a comover os leitores.
Ao longo das suas descrições de cidades e civilizações, Fernão Mendes Pinto acumula a fantasia com diversos aspectos de verdade etnográfica de múltiplas terras orientais.
Na verdade, o livro está repleto de episódios emocionantes vividos pela tradição trágico-marítima, nomeadamente aqueles que retratam as dificuldades vividas pelos homens no mar e nas terras “achadas”:
Mas o autor não deixou de criticar as atitudes menos dignificantes dos portugueses, como é o caso da denúncia de duas situações “comprometedoras de violências e extorsões praticadas nas costas da China”. E fá-lo de forma convicta,
afirmando Jacinto Prado Coelho que “a verdade e a indignação com que o faz integra-o naquele número de representantes da nossa espiritualidade que, denunciando perante a História as torpezas praticadas, isentam a Nação de uma conivência infamante.”
A obra caracteriza-se pela “expressão do concreto”, recorrendo com frequência a termos de guerra e marinha. Porém, o interesse da obra consiste no empenhamento do autor em “fixar a cor local” e em reproduzir o falar indígena.”
(Peregrinação. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2008. [Consult. 2008-10-22].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$peregrinacao>).
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